Atire a primeira pedra aquela professora que nunca se deparou com situação semelhante. Muitas vezes ficamos tão focadas na superação das dificuldades ou fragilidades da criança, que se torna difícil enxergá-la para além dessas dificuldades. Outras vezes, o que ocorre é que estamos muito envolvidas ou mobilizadas com todo o contexto da criança e aquilo que ela gera – e que nós precisamos administrar – junto à turma. Assim, não é incomum sentir a impressão de que não há algo positivo para relatar sobre a criança. Mas há! E eu irei lhe ajudar a pensar sobre recursos que você pode acessar para superar essa dificuldade.
É importante, inicialmente, lembrar o que é avaliação. Hoffmann (2020, p. 40) afirma que “Avaliar é construir estratégias de acompanhamento da história que cada criança vai construindo ao longo de sua vivência na instituição e fora dela, participando dessa história.” Assim sendo, é importante lembrar que nenhuma história humana é totalmente negativa, mas sim, composta por múltiplos fatores.
Isso nos leva a pensar sobre as formas de acompanhamento da história de cada criança. E é justamente esse o primeiro recurso que gostaria de sugerir. Pode parecer óbvio, mas certamente não é, pois na correia do cotidiano e na tensão durante a escrita dos documentos avaliativos, por vezes pode-se esquecer de até mesmo o óbvio. Assim, minha sugestão é que as professoras revisitem seus registros!
Se as professoras acompanham efetivamente a trajetória de desenvolvimento das crianças ao longo do processo e se realizam observações com intencionalidade, é improvável que não consigam resgatar aspectos relevantes e positivos sobre o desenvolvimento da criança em questão. Olhar para o passado e resgatar o que foi vivenciado, ajuda a ter uma noção mais assertiva sobre como foi o desenvolvimento ao longo do período avaliado.
“A partir do momento em que o escritor escreve sobre o outro, tem a possibilidade de ampliar seu ponto de vista e conhecer o outro – no caso do professor, seu grupo de referência.” (PROENÇA, 2021, p. 54) Assim, o registro sobre o desenvolvimento da criança passa a ser um recurso importantíssimo para conhecer e ampliar o se vê em relação a ela. Desta forma, certamente o acompanhamento da trajetória ajudará a enxergar múltiplos aspectos do desenvolvimento da criança e o olhar, que anteriormente estava focado nas dificuldades ou fragilidades, poderá ampliar-se e reconhecer várias potencialidades da criança. Nesse sentido, na escrita do relatório ou parecer descritivo, é possível inserir falas, episódios reais, situações concretas que ocorreram com a criança, resgatados dos registros da professora.
Se ainda for difícil ou caso não tenha realizado registros do processo, a segunda possibilidade é pedir ajuda. Isso mesmo! O trabalho docente não precisa ser solitário. Na escola, precisam ocorrer parcerias que possam ajudar cada professora a realizar o seu melhor.
A ajuda de outra pessoa, especificamente na situação que estou explorando neste texto, ou seja, devido à dificuldade em perceber aspectos positivos sobre uma criança, é especialmente importante, pois, por vezes, estamos tão envolvidas emocionalmente, exaustas, chateadas e nos sentindo impotentes, que não conseguimos enxergar os aspectos positivos. Assim, contar com auxílio de alguém que também conheça a turma e a criança, e que se proponha a “ajudar a olhar” torna-se extremamente salutar!
Desta forma, é importante buscar alguém com quem se consiga trocar ideias e impressões, alguém que partilhe suas impressões ou que questione sobre a criança, fazendo-nos pensar e perceber aspectos que talvez ainda não tenhamos percebido. Pode ser alguém da coordenação pedagógica, alguma outra professora que atue na turma, mesmo que eventualmente, uma auxiliar de sala ou parceira de trabalho.
Para finalizar, mais um aspecto relevante: se seu olhar estava “viciado”, percebendo somente as fragilidades da criança e se, com o resgate dos registros ou com a ajuda de outras pessoas, foi possível ampliar o olhar sobre a criança, é importante que esse “novo olhar” não seja algo meramente performático, que você somente utilize na escrita dos documentos avaliativos. Procure incorporar no cotidiano essa nova perspectiva sobre a criança. Certamente sua relação com ela irá se qualificar e novas possibilidades de desenvolvimento poderão ser criadas.
REFERÊNCIAS:
PROENÇA, Maria Alice. O registro e a documentação pedagógica: entre o real e o ideal… o possível! São Paulo: Panda Educação, 2021.
HOFFMANN, Jussara. Avaliação e Educação Infantil: Um olhar sensível e reflexivo sobre a criança. Porto Alegre: Mediação, 2020.
Mencione este texto utilizando a seguinte referência:
GRANDO, Katlen Böhm. “Tenho dificuldades em relatar algo positivo sobre uma criança desafiadora!” – Disse a professora.. Disponível em: http://www.katlengrando.com
