Muitas professoras me procuram com dúvidas sobre a escrita dos documentos avaliativos. Uma dessas dúvidas diz respeito ao uso de algumas palavras que poderiam ser consideradas inadequadas. Chegam a falar em palavras proibidas. Frente aos meus estudos e minha experiência de 20 anos no campo da educação, acredito ser importante refletir sobre isso e gostaria de pensar, inicialmente, sobre a palavra “ainda”.
Leia e reflita sobre este trecho de um relatório de uma criança de 7 anos: “Helena ainda não conhece todo o alfabeto e os sons das letras.” Essa situação não é incomum, por mais que se espere que a criança já pudesse reconhecer as letras e estar fazendo correspondências grafema-fonema nessa fase do processo de alfabetização. Muitas crianças acabam, em função de diversos fatores, por demorar um pouco mais para compreender o nosso sistema de escrita e, construir a base de conhecimentos que permitirá que se alfabetizem. Não aprofundarei a análise sobre as dificuldades, tampouco entrarei nos aspectos referentes às estratégias para que essa criança possa avançar em seus conhecimentos. Minha intenção é refletir sobre o uso da palavra “ainda”, presente na frase inicial.
Várias pedagogas, que também se debruçam no estudo sobre avaliação e escrita dos relatórios e pareceres, condenam o uso da palavra “ainda”, pois essa palavra passa a mensagem de uma falta por parte da criança. “Ainda” coloca a criança em determinado tempo e, utilizando os colegas da turma ou alguns indicadores ou fases de desenvolvimento como parâmetros, evidencia que a criança sobre a qual se está falando, diferentemente do que se espera, não construiu, não desenvolveu, “não deu conta” de determinada habilidade ou conteúdo estudado. Ou seja, apresenta, a partir da comparação, uma dimensão da falta.
Assim, essa palavra está presente em construções frasais que evidenciam o que não foi construído. A partir dos meus estudos, defendo que os relatórios e pareceres também necessitam abordar as dificuldades das crianças, uma vez que elas podem fazer parte da trajetória de desenvolvimento individual, portanto, não há problema algum nisso. O grande problema, a meu ver, está quando as professoras só conseguem olhar para as dificuldades e não enxergam o processo de desenvolvimento como um todo.
Voltemos à palavra “ainda”! A reflexão que proponho sobre o uso desta palavra está alicerçada na ideia de que o processo de desenvolvimento humano não tem fim. Todos nós ainda não construímos algo, ainda estamos em processo. Ao utilizar “ainda” pode-se passar a ideia de que falta algo na criança, no entanto, dependendo da maneira como se faz isso, também é possível transmitir a ideia de que ela ainda não construiu, mas irá construir, e de que acredita-se que a criança irá construir. A professora Jussara Hoffmann afirma:
“Cada etapa da vida de uma criança é altamente significativa e precedente às próximas conquistas e precisa ser analisada como um projeto de futuro, como um ‘ainda’ que não se realizou, mas que é sempre possível se lhe forem oferecidas oportunidades para isso” (HOFFMANN, 2020, p. 93).
Na interpretação que realizo deste trecho da professora Jussara, percebo que cabe um mundo de possibilidades na palavra “ainda”, ou seja, um futuro que é aberto. “Ainda” fala sobre um projeto a ser realizado ou que está em curso e que é possível ser efetivado.
Nos relatórios e pareceres, a palavra “ainda” pode ser utilizada para evidenciar habilidades em processo de construção, que podem, ao longo do mês, do trimestre, do ano, tornarem-se construídas, o que ocorrerá com a mediação das educadoras. Desta forma, o uso da palavra “ainda”, não representa problema algum, se puder transmitir a ideia desse desenvolvimento que está em aberto. Uma possibilidade de utilizá-la de forma respeitosa e valorizando a trajetória da criança é relatando também como a escola vem ajudando a criança a desenvolver esse aspecto ainda não construído, o que a escola apresenta como estratégias, como possibilidades para que esse desenvolvimento continue acontecendo.
Você já havia pensado sobre o uso dessa palavra nos documentos avaliativos?
REFERÊNCIA:
HOFFMANN, Jussara. Avaliação e Educação Infantil: Um olhar sensível e reflexivo sobre a criança. Porto Alegre: Mediação, 2020.
Mencione este texto utilizando a seguinte referência:
GRANDO, Katlen Böhm. Uso da palavra “ainda” nos relatórios e pareceres avaliativos. Disponível em: http://www.katlengrando.com
