Não, colegas, eu não pesquiso sobre educação socioemocional. Esse não é o foco dos meus estudos, porém, acho importante propor algumas reflexões embasadas na minha experiência de 20 anos em educação, interação com milhares de professores desse Brasilzão e estudos em outros campos da educação.
Atualmente percebemos o quanto é, e na verdade sempre foi, importantíssimo abrir espaço na escola para a educação socioemocional, afinal, na escola agregamos seres humanos, seres complexos e com questões complexas que os constituem. Além disso, para muitos a escola é o ambiente mais saudável a que têm acesso. Ocorre que, especialmente quando vemos projetos ligados a essa temática serem desenvolvidos na Educação Infantil, muitíssimas vezes as professoras escolhem um mesmo livro de literatura infantil para explorar e realizam as mesmas propostas a partir dele.
O livro “O monstro das cores”, da autora Anna Llenas é lindo e muito potente. Aliás, sou uma fã dessa autora e minha biblioteca contém outros materiais publicados por ela. Acredito que ela tenha a habilidade de abordar temas complexos com a simplicidade e o encantamento de uma criança que está conhecendo o mundo. Assim, minha crítica aqui não é ao livro, muito menos à autora, mas sim, uma problematização sobre o uso que se faz desse livro e um chamamento para a necessidade de ampliarmos as possibilidades ligadas à literatura infantil, afinal, não é este o único livro infantil que trata sobre os sentimentos e as emoções em língua portuguesa. O que ocorre me parece ser um modismo em relação a esse livro em específico e um empobrecimento das práticas que se dizem de educação socioemocional.
Ao levarmos essa temática para a escola, não precisamos, necessariamente, elaborar um projeto ou sequência didática sobre. É possível, simplesmente, utilizar como leitura deleite ou em uma roda de conversa. Aliás, acredito em uma eduaçãosocioemocional que se faz no cotidiano, que ocorre nas mediações e encaminhamentos realizados pelas educadoras.
Além disso, projeto é aquilo que se faz com as crianças. Fazer um projeto, significa estudar um tema de forma mais aprofundada com a turma. Não é simplesmente ler um livro e fazer algumas atividades decorrentes dele. Um projeto pressupõe pesquisa, investigação, crianças envolvidas em uma aprendizagem na qual elas sejam protagonistas. Nesse sentido, será que o uso de somente uma literatura dará conta de provocar as crianças a pensar e investigar (junto com outras estratégias, é claro!)?
Para a criança, é importante ir entendendo aquilo que sente, mas não pode-se reduzir a intencionalidade pedagógica em reconhecer as diferentes emoções e sentimentos e classificá-los. É preciso ir além! Educação socioemocional não se reduz a relacionar emoções com cores e classificá-las em potes. Cabe lembrar que esse é um processo longo, de uma vida inteira. Na escola, abordamos somente uma partezinha dessa complexidade toda, mas essa partezinha precisa ser mais reflexiva do que tenho visto.
– O que me faz sentir assim?
– O que eu faço com isso que estou sentindo?
– Quando fico dessa forma, o que posso fazer?
– Quais são as situações que me fazem ficar dessa forma?
– Outras pessoas, na mesma situação, sentem o mesmo? Por quê?
– O que penso ou tenho vontade de fazer quando estou assim?
– Por que isso me mobiliza?
– Como funciona essa coisa de sentimentos dentro da gente?
Essas são somente algumas perguntas que podem ampliar o pensar junto com as crianças e que demandam tempo para investigar. Não é viável explorar o tema de forma apressada, fazer correndo porque logo precisa iniciar outro projeto. É necessário fugir de uma lógica da pressa na escola das infâncias.
Há, ainda, outro ponto muito importante: é humano não saber bem o que está sentindo. Os sentimentos, mesmo nos adultos, nem sempre são claros e estão “organizados”. Muitas vezes o que sentimos é um misto de coisas, um emaranhado confuso. E nem sempre precisamos classificar, dar nomes, colocar uma lupa sobre eles. Conforme formos amadurecendo, iremos construindo estratégias de identificação daquilo que gera sentimentos que nos impactam de forma negativa e formas de lidar com isso. Isso leva muito tempo! Muitas pessoas fazem (e muitas outras deveriam fazer) terapia para buscar essa consciência. Assim, na escola, em muitos momentos, é importante, simplesmente acolher e ajudar a criança a lidar com o que está sentindo. Essa é a educação sociemocional que se faz no cotidiano, não necessariamente ligada a algum projeto.
Outro aspecto essencial é de que a educação socioemocional não pode gerar culpa na criança por ela estar sentindo o que está sentindo. (“Sentir raiva é ruim! Eu não deveria estar sentindo isso!”) Então não podemos cair no erro de julgar que alguns sentimentos são bons e outros são ruins. Sentir raiva, inveja, medo, tristeza é humano! Somos humanos e está tudo bem. A partir de todas essas provocações, deixo o convite à reflexão sobre esses pontos que, a meu ver, são essenciais.
Mencione este texto utilizando a seguinte referência:
GRANDO, Katlen Böhm. Educação socioemocional: aspectos a refletir. Disponível em: http://www.katlengrando.com
