Hoje, dia 14 de novembro, celebramos o Dia da Alfabetização. Na minha jornada de aproximadamente 20 anos de imersão nesse tema, seja como professora alfabetizadora ou como pesquisadora do campo, pude acompanhar a beleza da construção desse processo, o início da descoberta do Sistema de Escrita Alfabética e o brilho no olho de quem vai, aos poucos, conseguindo desvendar o universo letrado no qual fazemos parte.
Ao conversar e ouvir algumas professoras e supostos “formadores” sobre a temática da alfabetização, venho percebendo incompreensões sobre dois termos, relacionados entre si, mas distintos. Essa imprecisão leva a sustentação de concepções equivocadas sobre o processo de alfabetização. Refiro-me aos termos consciência fonêmica e método fônico.
Vamos, primeiramente, buscar conceituá-los, mesmo que de maneira breve, para, assim, dissipar equívocos decorrentes da incompreensão dos conceitos.
Consciência fonológica é uma habilidade metafonológica, imprescindível para a alfabetização de qualquer pessoa. Refere-se, assim, à habilidade de refletir sobre os sons da fala e manipulá-los, o que possibilitará que o aprendente possa compreender que aquilo que emitimos através da fala pode ser registrado através de sinais gráficos, a escrita. Desta forma, a criança passa de uma ideia de que a escrita relaciona-se a características do objeto, para o entendimento de que a escrita corresponde aos sons da palavra.
Magda Soares (2021, p. 77) afirma que “Essa capacidade de refletir sobre os segmentos sonoros da fala é o que se denomina consciência fonológica: a capacidade de localizar e segmentar a cadeira sonora que constitui a palavra e de refletir sobre seus segmentos sonoros, que se distinguem por sua dimensão: a palavra, as sílabas, as rimas, os fonemas”.
A consciência fonológica não é um conhecimento nato do ser humano. Assim, precisa ser intencionalmente ensinada. E, como já mencionado, é um conhecimento de base para a construção da alfabetização. A consciência fonológica é dividida em: consciência de rimas, consciência de aliterações, consciência de palavra, consciência silábica e, por fim, consciência fonêmica. Cada uma delas refere-se a segmentos distintos das palavras e todas são importantes.
Na escola, as professoras utilizam diversos recursos e propostas para ensinar as diferentes dimensões da consciência fonológica, incluindo jogos orais e músicas, brincadeiras com rimas, identificação de palavras que iniciam iguais, propostas de criação de palavras com diferentes sílabas, comparações entre palavras, identificação de sons isolados, dentre inúmeras outras possibilidades. Dentre as consciências citadas, a consciência fonêmica é a mais refinada. Ela consiste em isolar cada um dos fonemas, manipulá-los e relacioná-los às letras correspondentes.
O método fônico (poderíamos dizer: os métodos fônicos), por sua vez, é estruturado por uma série de atividades baseadas na consciência fonêmica. A partir dele, as crianças são alfabetizadas tendo como foco os fonemas, que são ensinados isoladamente, seguindo uma sequência do mais simples para o mais complexo. O ensino também ocorre dos fonemas para as sílabas, das sílabas para as palavras e, somente então, para frases.
“[…] propõem que o aprendiz seja treinado a pronunciar fonemas isolados e a decorar letras que a eles equivalem, para, juntando mais e mais correspondências fonema-grafema, possa ler palavras e, um dia, ler textos.” (MORAIS, 2012, p. 29)
Uma das críticas ao uso desse método, da qual eu compartilho, é o desafio de isolar os fonemas, algo difícil inclusive para adultos experientes no uso da língua oral e escrita. Em Língua Portuguesa, todas as sílabas são compostas por, ao menos uma vogal, o que permite que as consoantes sejam adequadamente pronunciadas. Ao isolar cada uma das letras, tem-se a produção de sons que, naturalmente, na fala cotidiana, não aparecem da mesma forma, uma vez que são acompanhados das vogais. “[P]or trás dos métodos fônicos está a crença de que os fonemas existiriam como unidades na mente do aprendiz (que poderia não só pensar neles, mas, sem muito esforço, pronunciar /S/ /a/ /v/ /i/ para a palavra chave).” (MORAIS, 2012, p. 29)
Além disso, por mais que se busque utilizar pequenos textos para impulsionar essa prática, ela acaba por tornar-se descontextualizada e/ou superficial. “No livro Casinha Feliz, as consoantes são consideradas como ajudantes das vogais: ‘esse ajudante que parece um martelo, que tem uma perna bem comprida, é o ajudante do papai. Ele quer dizer papai, mas só faz um barulhinho assim: p p p. Parece um martelo batendo de leve’.” (FRADE, I. Glossário Ceale)
Independentemente de ser a favor, ou não, do uso do método fônico, é importante ressaltar que ele é estruturado nas habilidades de consciência fonêmica, ele não é a consciência fonêmica, tampouco a consciência fonêmica é o método fônico. O método fônico refere-se a um conjunto de procedimentos adotados para que uma criança se torne alfabetizada, já a consciência fonêmica é uma habilidade, dentre várias outras, necessárias para que a criança aprenda a ler e a escrever.
Assim, reitera-se que tais termos não são sinônimos. Outros métodos ou propostas de alfabetização – além do método fônico – também irão trabalhar as habilidades de consciência fonológica, incluindo a consciência fonêmica, visto que é uma habilidade importante para a construção dos conhecimentos necessários à alfabetização.
REFERÊNCIAS:
FRADE, Isabel C. A. S. Glossário Ceale – Método fônico ou fonético. Disponível em: https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/metodo-fonico-ou-fonetico#:~:text=Neste%20m%C3%A9todo%20o%20ensino%20se,simples%20para%20os%20mais%20complexos.
MORAIS, Artur Gomes de. Sistema de escrita alfabética. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2012.
SOARES, Magda. Alfaletrar: Toda criança pode aprender a ler e a escrever. São Paulo: Contexto, 2021.

