Nilton José Neves Cordeiro, Marta Nörnberg, Josiane Jarline Jäger,
Katlen Böhm Grando e Luiza Kerstner Souto
Como conseguir um olhar macro e, ao mesmo tempo, condensado sobre obras produzidas pelas Universidades que coordenaram a formação de professores proposta pelo programa Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC)? Como constituir algo de maneira colaborativa e dinâmica, de tal sorte a poder fornecer subsídios que deem pistas para responder questões sobre a política de alfabetização e de formação de professores alfabetizadores; os tipos de materiais e de práticas de alfabetização desenvolvidas com as crianças; as formas de gestão e de avaliação de sistemas de ensino no âmbito do ciclo de alfabetização, entre outras?
A estratégia pensada foi trabalhar com a construção de um Banco de Dados (BD) em razão de duas motivações:
1) A possibilidade de organizar informações amplas e específicas sobre um conjunto de obras elaboradas durante o desenvolvimento de um programa de formação que teve abrangência nacional.
2) A versatilidade de se delinear e implementar algo que armazena dados com várias características atrativas como segurança, velocidade, robustez e acessibilidade, proporcionando uma fonte para geração de informação e pesquisas.
Reunir informações sobre um amplo conjunto de textos ou obras ainda é tarefa desafiante, entretanto, fundamental e necessária para aprimorar a investigação em diferentes áreas do conhecimento e da pesquisa em educação. Por isso, o Banco de Dados pode ser entendido como uma ferramenta que amplia o próprio sentido da pesquisa, pois, de acordo com Werle (2000, p. 60), trata-se de
uma forma de ação, de pesquisa e de produção de conhecimento. Ao capturar em si documentos, manifesta uma forma de conhecer e modificar, transformar o objeto, institui um processo que transforma os documentos (estrutura, códigos, relacionamentos, níveis).
Dito de outro modo, o ato de projetar e de alimentar a estrutura de um Banco de Dados já produz conhecimento. Nesse sentido, um BD torna-se local capaz de criar e integrar a pesquisa e a produção de conhecimento, pois quando um documento passa a fazer parte de um BD, fica sujeito à ação do pesquisador. Em todo caso, um BD só produzirá conhecimento se este for um dos seus objetivos. Um BD pode ser utilizado apenas como repositório, armazenando dados, o que não se traduz, necessariamente, em conhecimento.
Mas, quando os materiais que compõem um BD são utilizados por um grupo de pesquisa visando certos objetivos ou problemas de investigação, produz-se informação e conhecimento (ALMEIDA, 2009). Essa distinção é necessária porque o dado por si só não garante produção de conhecimento, ele deve ser processado para gerar informação; somente com o trabalho de ilação e de análise as informações podem se tornar conhecimento. Corroborando esses aspectos, as advertências de Rozados (1997) sobre as necessidades de adaptar o formato do BD com os propósitos e a forma de organização do trabalho de pesquisa do grupo a que este se vincula precisam ser consideradas durante o processo de concepção, implementação e utilização na investigação.
Na literatura parece não haver uma definição única do que seria um Bando de Dados. Por exemplo, segundo Cayres (2015, p. 1), BD é uma “coleção de dados relacionados que podem ser inseridos, atualizados e recuperados e que possuem um significado implícito” ou, com um linguajar mais técnico e afeito à informática, é um “conjunto de arquivos integrados que atendem a um conjunto de sistemas” (HEUSER, 2009, p. 22). Teorey et al. (2011, p. 2, tradução nossa) dizem que um BD “é uma coleção de dados armazenados e inter-relacionados que atendem às necessidades de vários usuários em uma ou mais organizações, ou seja, uma coleção inter-relacionada de muitos tipos diferentes de tabelas”.
Com base nessas definições, entendemos e concebemos, sem prejuízo à formalidade técnica da área da informática, que um BD é uma coleção de dados que estão relacionados de forma lógica e coerente, onde os mesmos dados devem estar bem-organizados, facilitando atualizações e buscas de forma a proporcionar informações rápidas, seguras e confiáveis. Em nossa própria ideia de BD já se pode perceber que há motivações importantes para trabalhar com ele, como o fato de poder compartilhar dados de forma segura, sem redundância (duplicação) e com consistência (sincronia) dos dados, além da capacidade de armazenar grande quantidade de dados, pesquisar com velocidade, permitir atualizações, dentre outras.
De igual modo, afirmamos a relevância da constituição deste Banco de Dados, que reúne elementos sobre as obras publicadas pelas universidades públicas que coordenaram e desenvolveram o PNAIC, em parceria com as redes básicas de ensino e o Ministério da Educação. Esta é, no nosso modo de ver, uma ação relevante porque, além de sistematizar um conjunto de dados, também oferece subsídios para a pesquisa no campo da formação docente, da alfabetização e das políticas educacionais.
CONCEPÇÃO, CARACTERÍSTICAS E APLICABILIDADE DO BD
O Banco de Dados planejado e alimentado está vinculado ao projeto interinstitucional “Rede Dialógica de Formação Continuada: Avaliação do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC)”, cujo objetivo geral é analisar os impactos do programa, no período de 2013 a 2018, investigando estratégias adotadas pelas universidades no que tange à formação continuada de professores. Além disso, definir indicadores e produzir dados acerca da implementação do PNAIC, com a finalidade de subsidiar estudos da política, tanto no nível nacional quanto regional e local. Do ponto de vista metodológico, trata-se de um estudo documental em que se analisam documentos e produções resultantes das ações implementadas pelas instituições de ensino superior públicas que coordenaram o programa PNAIC em suas regiões. Para isso, o projeto organiza-se em torno de seis subprojetos, tendo cada um deles objetivos específicos para a avaliação do programa.
O subprojeto 5 tem como material empírico as publicações oriundas das ações no âmbito do PNAIC e seu principal objetivo é analisar os diferentes paradigmas de formação continuada para professores e alfabetização escolar assumidos pelos grupos que implementaram o PNAIC em cada estado brasileiro. Dentro da variedade de publicações feitas, o grupo de trabalho selecionou livros organizados e editados pelas equipes das IES coordenadoras do PNAIC. E para desenvolver o trabalho, foi planejado e implementado o Banco de Dados Access – Obras do PNAIC.
A construção do BD envolveu quatro movimentos. O primeiro movimento feito para a concepção e posterior construção do BD foi o de realizar leituras e reuniões em que se conversou e debateu sobre aspectos relativos à busca e organização de informações, vislumbrando o que seria importante e possível de ser extraído das obras para que se pudesse responder às perguntas que instigavam os pesquisadores antes mesmo das reuniões e, ainda, outras surgidas durante esses encontros.
Com base nas reflexões oriundas dos encontros de estudos, o segundo movimento abrangeu o desenho de um esboço conceitual e lógico para a posterior implementação do BD.
O terceiro movimento envolveu a construção de uma primeira versão do BD para apresentação ao grupo de pesquisadores, que avaliou sua funcionalidade em relação à fidedignidade do que tinha sido proposto e solicitado pelo grupo. Esta terceira etapa constituiu-se de muitas idas e vindas, pois a dinâmica de mostrar versões do BD ao grupo em diversos momentos para uma construção “definitiva” da versão a ser trabalhada tornou possível ampliar a compreensão de todos sobre os elementos a serem inseridos, assim como as possíveis ilações que poderiam ser feitas com base nos dados das obras que seriam inseridos no BD.
Durante o período dedicado à avaliação e testagem das versões do BD, novas inquietações investigativas e associadas com as limitações técnicas e tecnológicas surgiram, e foi desse processo que o BD se moldou para a sua concepção “ora final” para ser alimentado. O quarto movimento foi a alimentação propriamente dita do BD com dados e elementos que foram destacados e deliberados no decurso do movimento anterior.
A forma de alimentação do BD foi feita a partir da colaboração de vários pesquisadores e realizada da seguinte maneira: todos os dados e elementos de um determinado capítulo de uma obra eram preenchidos por uma única pessoa. Para isso, as obras produzidas pelas universidades coordenadoras do PNAIC foram armazenadas em nuvem em formato de arquivo pdf. Para cada pesquisador foi atribuída de uma a quatro obras, sempre de instituições distintas da sua. O pesquisador realizava uma leitura interessada de toda a obra, visando localizar e destacar os dados e elementos relativos a cada segmento do BD.
O processo de construção coletiva de recursos de pesquisa não é recente no campo da pesquisa em educação. Citamos como referência de uma experiência exitosa o Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” – HISTEDBR, vinculado à Faculdade de Educação da UNICAMP, que criou um Glossário em que os diversos verbetes disponibilizados foram elaborados por diferentes autores (LOMBARDI, 2005; LOMBARDI; SAVIANI; NASCIMENTO, 2006).
O modelo de dados com o qual se optou trabalhar no BD, caracterizando a forma de associação e operação de dados, foi o relacional. Essa escolha, com sua forma de relacionar, descrever e representar os dados, utiliza-se de uma tabela como estrutura fundamental. Esta configuração em tabela, com seu conceito fácil de entender através de suas linhas e colunas, além do processamento dos dados, embasado em operações matemáticas elementares da teoria dos conjuntos e álgebra relacional, foram atrativos para se optar pelo modelo.
A Figura 1 mostra a estrutura geral do BD com suas 10 tabelas (cada tabela é representada por um retângulo), onde cada uma delas armazena um conjunto de atributos de interesse, relacionado à obra como um todo, aos seus organizadores, aos capítulos que a compõem, aos seus autores e assim por diante. Destaque-se que, nesta mesma figura, as setas ligando as tabelas que formam o BD indicam como elas se relacionam (“conversam”).
Figura 1 – A estrutura relacional do Banco de Dados

Já a Figura 2 revela uma ideia de como as tabelas que estruturam o BD são adotadas, mostrando um recorte da tabela referente ao cadastro das 42 obras que foram inseridas no Banco. Cada linha representa um registro, e as colunas os atributos. Neste exemplo, cada linha é representativa de uma obra cadastrada, com características relacionadas a ela (diversos atributos), como: editora pela qual foi lançada, ISBN, número de páginas, de capítulos, endereço eletrônico (em havendo), dentre outras informações. Vale destacar que o nome da obra está em uma das primeiras colunas desta tabela tomada como exemplo.
Figura 2 – Exemplo de uma tabela que compõe a estrutura do Banco de Dados

A tela inicial do BD, conforme Figura 3, além de procurar ter um visual amistoso, já fornece um panorama de quais tipos de dados alimentarão o banco de acordo com quatro vertentes, a saber: “Obras”, onde se inserem dados tais como ISBN, quantidade de capítulos, ano de publicação, universidade, dentre outros; “Participantes”, onde há interesse em nome completo dos participantes da obra, sua titulação, instituição em que trabalha, qual o seu vínculo com o PNAIC, se participa de grupo de pesquisa, etc.; “Capítulos”, onde se registra o título completo do capítulo, identifica seus autores, seleciona o tipo de texto que foi escrito, associam-se palavras-chave e várias outras características; e “Elementos/Organizadores”, em que se evidenciam os elementos pós e pré-textuais, como apresentação, prefácio, dentre outros, com sua respectiva autoria, além de associar à obra os seus respectivos organizadores.
Figura 3 – Tela inicial do Banco de Dados

Mesmo sendo o padrão em forma tabular de apresentar, descrever e relacionar os dados, a alimentação deles no BD pelo usuário se dá através de uma tela (interface) muito mais intuitiva e amigável. Como exemplo, os dados armazenados na tabela ilustrada pela Figura 2 foram inseridos no BD a partir da interface conforme demonstrado na Figura 4.
Outra característica importante desse BD é que ele foi implementado sob o Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados – que aqui podemos tratar como sendo o software para sua implementação – denominado Access. Alguns aspectos contribuíram para, nesse momento, ser feita essa opção. Salientamos três deles bastante atentos e preocupados com a familiarização tanto por parte de quem alimentaria o BD quanto por quem o operaria: a popularização do Microsoft Office, pois sendo o Access um dos seus componentes, potencializa a viabilização do preenchimento descentralizado do Banco; permite realizar a exportação de resultados de busca e consultas do Banco em diversos formatos, como texto, pdf, planilha eletrônica, por exemplo; e, há compatibilidade com outros programas também largamente difundidos como o Microsoft Word e Microsoft Excel.
Figura 4 – Exemplo de interface do Banco de Dados para a sua alimentação

Como exemplo de recurso disponível no BD e demonstração da potencialidade, versatilidade e utilidade deste Banco, mostramos na Figura 5 um recorte do resultado de um filtro – filtrar é uma ação para relacionar e apresentar apenas dados específicos desejados pelo usuário -, que nos fornece um panorama geral de quantas obras existem no Banco, a qual universidade ela está vinculada, quantos capítulos e número de páginas cada obra possui, bem como o ano de sua publicação.
A partir dessa extração de informações com o recurso de aplicação de filtro no BD, pode-se realizar a sistematização de características gerais das obras cadastradas até o momento no BD ou de dimensões decorrentes de aspectos ou questões de investigação propostas pelos pesquisadores. Na próxima seção, demonstramos algumas leituras realizadas em decorrência da aplicação de filtros no BD.
Figura 5 – Exemplo de resultado de um filtro aplicado ao Banco

BANCO DE DADOS ACCESS – OBRAS DO PNAIC: VISÃO GERAL
Uma das características da potencialidade de um banco de dados é o seu poder de organização e síntese. Desta forma, apresentamos no Quadro 1 uma visão geral das obras cadastradas, consolidando informações basilares, tais como região, IES, título da obra, ano de edição e a editora pela qual foi publicada.
Quando atentamos para os títulos das obras, percebemos a diversidade de temáticas que foram abordadas e a sua articulação com experiências e práticas docentes. Também é possível observar que algumas IES investiram na continuidade do processo de escrita, organizando os livros em formato de coleção. Destaca-se, ainda, a presença de editoras universitárias ou núcleos de publicação de unidades acadêmicas participando do processo de editoração e impressão das obras, o que demonstra o envolvimento de diferentes setores das universidades públicas com o desenvolvimento das ações vinculadas ao PNAIC.
Quadro 1 – Consolidado das obras cadastradas


Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Banco (2021).
Das 38 IES que coordenavam o programa em 2013, praticamente um terço delas investiu na organização e publicação de livros, mobilizando professores da educação básica e do ensino superior a escreverem sobre suas experiências e estudos. Ao longo da vigência do programa, outras IES foram envolvidas, como a UFPB, a partir de 2014, UFRGS, em 2016, e, a partir de 2017, com a alteração do programa, que passou a realizar a formação de docentes da Educação Infantil e de articuladores do Programa Novo Mais Educação, a FURG, a UNIPAMPA e a UFFS, instituições que também sistematizaram reflexões sobre o programa em formato de livro.
Cabe advertir que as equipes das demais IES realizaram publicações em outros formatos, como trabalhos em eventos, artigos e dossiês temáticos em periódicos de divulgação científica e pedagógica. A Figura 6 localiza as IES coordenadoras do PNAIC no território brasileiro e sinaliza as que publicaram obras que compõem, até o momento, o banco de dados.
Figura 6 – IES coordenadoras do PNAIC

Em termos de colaboração acadêmica, observamos um amplo movimento de articulação entre diferentes grupos de pesquisa, dentro de uma mesma IES coordenadora do PNAIC, como também entre grupos de pesquisa vinculados a diferentes IES públicas. Tal aspecto mostra a criação de uma rede de formação e reflexão coletiva sobre o programa e o seu fortalecimento por meio da organização das obras ou da participação na autoria dos textos que as compõem, colocando em evidência o intercâmbio acadêmico-científico e as trocas de experiências entre profissionais de diferentes grupos de pesquisa e instituições.
Embora se note o envolvimento de vários grupos de pesquisa, tanto dos que coordenaram o programa como dos que foram parceiros pontuais, é preciso chamar a atenção para a concentração da universidade pública nas regiões litorâneas, o que reivindica a atenção continuada do Estado e da sociedade brasileira para retomar o processo de expansão e interiorização da universidade pública.
O Quadro 2 apresenta uma visão geral das obras cadastradas no Banco (2021) em relação à quantidade de publicações por IES, volume de capítulos e páginas que as compõem. Tais informações podem fornecer aspectos importantes para o processo de avaliação do PNAIC. Um deles refere-se à existência da distribuição das obras publicadas entre todas as regiões do país. Observa-se, também, um fluxo contínuo de publicações sobre as ações do PNAIC desde o início do programa, em 2013, tendo sido significativamente ampliado no último ano de sua vigência, em 2018, com 12 livros editados, sendo este o ano de maior intensidade de produção. Constata-se, ainda, que mesmo após a interrupção do programa pelo Ministério da Educação, nos anos subsequentes – 2019, 2020 e 2021 – foram editados mais outros 10 livros.
Quadro 2 – Visão geral das obras do BD

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Banco (2021).
Outra consideração importante que constatamos a partir dos dados extraídos do BD e sua adequada utilização é a geração de informações esclarecedoras, conforme dispostas na Figura 7, tais como uma forte tendência crescente da quantidade de publicações sobre as ações do PNAIC de 2013 a 2018, atestada pela linha pontilhada azul, representativa de uma tendência linear com os dados dos anos em questão; e, por outro lado, uma tendência decrescente significativa dos anos seguintes ao término do PNAIC, constatada pela linha pontilhada vermelha, considerando uma tendência linear entre os anos de 2019 e 2021.
Figura 7 – Quantidade de edição de obras de 2003 a 2021

A Figura 7, por um lado, oferece pistas para pensarmos sobre as contribuições e resultados do investimento na formação docente como política de Estado, o que exige a garantia de financiamento e de condições objetivas tanto para a formação como para o trabalho docente. Nesse sentido, o PNAIC ofereceu certas condições que tornaram possível a formação docente e, consequentemente, favoreceu a gradativa melhoria da qualidade das práticas de alfabetização das crianças.
Esse aspecto foi observado em estudo que focalizou a proficiência na Avaliação Nacional da Alfabetização de crianças matriculadas em escolas públicas em que seus docentes participaram das formações realizadas pelo PNAIC (PIERI; SANTOS, 2021). Por outro lado, a mesma Figura 7 anuncia as consequências do desinvestimento no programa, ilustrando o que, no campo dos estudos sobre políticas educacionais, tem sido problematizado amplamente: a descontinuidade de políticas e programas de formação de professores que trabalham na educação básica.
Outra visão que podemos ter das publicações oportunizada pelo BD é ilustrada na Figura 8. A partir da sua análise, é possível perceber como os tipos de capítulo/texto se distribuem no contexto geral das publicações, considerando todas as regiões do país conjuntamente ou, então, com o olhar específico para cada uma delas. Outro elemento se refere a como se dispõem essas obras, ao analisar a intensidade de como um determinado tipo de capítulo/texto se comporta, ao considerar as diversas regiões.
Figura 8 – Distribuição dos tipos de capítulo/texto por região*

*A área de cada círculo é representativa da quantidade de obras.
Na Figura 8, com cada área do círculo traduzindo uma quantidade de obras, ou seja, quanto maior o círculo, maior a quantidade de obras publicadas e vice-versa, ao considerar uma abordagem macro, observando todas as regiões conjuntamente, constatamos que todos os tipos de capítulo/texto foram contemplados de alguma forma. No entanto, as maiores quantidades de publicações se referem a “relatos de experiência”, sobressaindo-se “relato de experiência de formação docente” na região Centro-Oeste. Também, há espaços vazios na figura, indicativo de ausência de certos tipos de publicações em algumas regiões, assim como há regiões com maior diversificação nos tipos de capítulo/texto, como a Nordeste, Sudeste e Sul, frente a Norte e Centro-Oeste, dentre várias outras análises possíveis.
Pela perspectiva intra região, ou seja, verificar o comportamento dos tipos de publicações considerando uma região específica, notamos que a Região Norte produziu somente “relato de experiência nos anos iniciais”; a Centro-Oeste apresenta vocação para “relatos de experiência”, com altíssima concentração – grande quantidade – nos “relatos de experiência de formação docente”. A Região Nordeste permeia quase todos os tipos de capítulo/texto, dando importância relativa semelhante entre os “relatos de experiência” e os “ensaios teóricos”; a Região Sudeste também transita em quase todas as qualidades de capítulo/texto, com maior ênfase nos “relatos de experiência”, além de ser a mais homogênea em relação ao espalhamento das quantidades por tipo, com um desvio-padrão da quantidade de publicações na ordem de 12,73 obras (CO = 122,45; NE = 16,94; S = 31,97), desconsiderando a Região Norte, por ter apenas um tipo de publicação; e, por fim, a Região Sul é a única que contempla todos os tipos de capítulo/texto, com maior presença de “relatos de experiência”, sendo os relatos “nos anos iniciais” mais frequentes, além de ser a região que apresenta a maior densidade de obras do tipo “estudo teórico”.
Ao verificarmos características de distribuição dos tipos específicos de capítulo/texto nas diferentes regiões, por exemplo, “relato de experiência de formação docente” só não se fez presente na Região Nordeste e, como já ressaltado, se apresenta com altíssima frequência na Região Centro-Oeste e nas outras três regiões do país se apresenta de maneira bem uniforme.
Ainda, constatamos que “relato de experiência nos anos iniciais” é a única categoria existente em todas as regiões, com prevalência na Região Sul, onde se configura como a categoria mais abundante; e, por fim, “ensaio teórico-prático sobre educação infantil” só é registrado na Região Sul.
A abundância de relatos demonstra a presença e o lugar ocupado pelas docentes de educação básica na autoria dos textos que compõem as obras publicadas pelas universidades públicas que coordenaram o programa PNAIC, em suas áreas de abrangência. Em razão disso, os relatos podem ser reconhecidos como testemunhos docentes, porque neles estão a força das vozes e das visões das alfabetizadoras, que expõem e refletem sobre os estudos e as práticas de ensino e de formação. Elas, ainda, discutem aspectos constituintes dos processos pedagógicos, apresentando seus desafios, dilemas e virtudes, além de dar concretude material e imaterial ao trabalho pedagógico realizado nas escolas públicas brasileiras.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entendemos que o esforço empregado em todas as etapas de concepção, implementação e utilização do BD proporcionou um resultado muito significativo e gratificante para todos os envolvidos no processo.
Contudo, a partir dessa nossa experiência, podemos e devemos pensar em algumas mudanças no BD, buscando aperfeiçoá-lo e melhorá-lo, imaginando se elas poderiam trazer benefícios, tais como: disponibilizar o preenchimento do BD on-line, mantendo um fluxo contínuo de alimentação; possibilitar que o próprio usuário efetue consultas simples ou mais complexas (relacionando variáveis e estabelecendo critérios); torná-lo ainda mais amigável e autoexplicativo no que diz respeito ao preenchimento dos campos; buscar um Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados (SGBD) livre, gratuito, confiável e de qualidade.
Entendemos que o BD pode ser utilizado, com êxito, na busca de respostas às inquietações que motivaram a sua própria construção, bem como tantas outras que foram surgindo nos movimentos dos encontros e debates. O BD foi se moldando e ganhando identidade de forma dinâmica e viva, com as necessidades apresentadas, as ideias dadas, as limitações impostas, e o que ele poderia oferecer. De fato, o BD, bem planejado, discutido, implementado, pode ser utilizado como recurso para gerar informações para o desenvolvimento de pesquisas. Mais que isso, corroboramos o que Werle (2000) aponta, isto é, que com as próprias ações de conceber, de construir e de alimentar um BD já se está fazendo pesquisa, e isto já é uma ação de construção de conhecimento.
Afirmamos, por fim, que mais rico ainda se torna o movimento de construção de conhecimentos quando há participação e trabalho coletivo envolvidos no processo de planejamento, desenvolvimento e análise das informações que um BD oferece sobre um determinado conjunto de dados. E este parece ter sido um dos legados do PNAIC, também observado nas obras publicadas: a presença das docentes, com suas subjetividades, conhecimentos e experiências, empenhadas com a sua formação e, sobretudo, com a educação e a alfabetização das crianças brasileiras.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Marco Antônio de. A produção social do conhecimento na sociedade da informação. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v.19, n.1, p. 11-18, jan./abr. 2009.
BANCO de Dados Access – Obras do PNAIC preparado por UVA e GEALE-UFPel. Access, Microsoft Office Professional Plus 2016, Versão 2002. 1 arquivo, 15.335.424 bytes. Banco de Dados, 2021.
CAYRES, Paulo Henrique. Modelagem de banco de dados. Rio de Janeiro: RNP/ESR, 2015.
HEUSER, Carlos Alberto. Projeto de banco de dados. Porto Alegre: Bookman, 2009.
LOMBARDI, José Claudinei. Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil (HISTEDBR). Acervo, Rio de Janeiro, v. 18, p. 183-196, 2005.
LOMBARDI. José Claudinei; SAVIANI, Dermeval; NASCIMENTO, Maria Isabel Moura (orgs.). Navegando pela História da Educação Brasileira. Campinas, SP: Graf. FE: HISTEDBR, 2006. Disponível em: https://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/apresentacao
PIERI, Renan Gomes de; SANTOS, Alexandre André dos Santos. Avaliação econômica do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 2021. (Série Documental. Textos para discussão).
ROZADOS, Helen Beatriz Frota. O Jornal e seu Banco de Dados: uma simbiose obrigatória. Revista Ciência da Informação, Brasília, v. 26, n. 1, abr.1997.
TEOREY, Toby et al. Database modeling and design: logical design. Amsterdã: Elsevier, 2011. 534p.
WERLE, Flávia Obino Corrêa. As novas tecnologias e a pesquisa em história da educação. In: Luciano Mendes Faria Filho. (org.). Arquivos, fontes e novas tecnologias: questões para a história da educação. 1.ed. v. 1. Campinas: Autores Associados, 2000. p. 45-62.
Mencione este texto utilizando a seguinte referência:
CORDEIRO, N. J. N. ; NÖRNBERG, Marta ; JÄGER, Josiane ; GRANDO, Katlen B. ; SOUTO, L. K. . Banco de dados – Obras do PNAIC: Concepções, características e aplicabilidade. In: Nörnberg, Marta; Leal, Telma Ferraz; Cardoso, Cancionila Janzkovski; Antunes, Helenise Sangoi. (Org.). Rede Nacional de Formação e Alfabetização: estudos e pesquisas sobre o PNAIC em livros, dissertações e teses. 1ed.Rio de Janeiro: , 2022, v. 3, p. 47-68.
